Doente em Portugal sem seguro: o que fazer primeiro
Vida em perigo: ligue 112.
Doente, mas não é emergência: ligue para o SNS 24, 808 24 24 24. O atendimento clínico funciona 24 horas por dia, todos os dias, e a chamada é gratuita.
"O meu marido está no Porto com febre muito alta, sem outros sintomas e sem seguro. Aonde vamos?" Uma pergunta assim aparece nos grupos de estrangeiros quase todas as semanas. Eis a ordem que funciona em Portugal e quanto pode custar se ainda não estiver, ou não estiver de todo, no Serviço Nacional de Saúde (SNS).
1. Quando ligar logo para o 112
Febre sozinha é frequente e, em regra, não é grave. Alguns sinais são diferentes. Os serviços de saúde indicam estes como sinais de alerta de sépsis em adultos, e pedem uma ambulância, não uma linha telefónica:
- respiração muito rápida ou dificuldade em respirar;
- confusão, fala arrastada ou discurso sem sentido;
- pele, lábios ou língua azulados, pálidos ou manchados;
- manchas na pele que não desaparecem quando se pressiona;
- temperatura muito alta ou muito baixa, pele fria ao toque ou tremores fortes.
Se for ao hospital pelos seus meios nesse estado, não conduza. Peça a outra pessoa que conduza ou ligue 112.
2. Nos outros casos, ligue primeiro para o SNS 24
O SNS 24 é a linha telefónica do serviço de saúde para problemas que não são emergência, e a febre é um dos exemplos que dá. Um profissional faz perguntas e encaminha para o sítio certo: cuidados em casa, um centro de saúde, a urgência do hospital ou o INEM, se afinal for uma emergência.
Tenha à mão a morada onde está, a idade da pessoa, há quanto tempo dura a febre, a temperatura mais alta medida, os medicamentos tomados e as doenças que já tem.
Ligar primeiro não serve só para pedir conselho. Para quem está coberto pelo SNS, a urgência hospitalar é o único sítio onde ainda se paga taxa moderadora, e essa taxa não é cobrada quando foi o SNS a encaminhar, por exemplo através do SNS 24, ou quando a urgência termina em internamento.
3. Centro de saúde, hospital público ou hospital privado
Centro de saúde. Cuidados de saúde primários. É para aqui que vai a maioria das febres depois de uma chamada para o SNS 24, e é aqui que mais tarde se inscreve para ter médico de família.
Urgência do hospital público. Para casos graves ou quando o SNS 24 o encaminha. Os doentes são vistos por prioridade, não por ordem de chegada, por isso um caso ligeiro pode esperar horas.
Hospital ou clínica privada. Abertos a quem paga, sem encaminhamento. Sem seguro, paga a conta toda. Peça um orçamento antes dos exames, porque uma noite com análises e imagiologia sobe depressa.
4. Quanto custa a um estrangeiro
Residente com número de utente: no SNS não há taxas moderadoras, exceto na urgência hospitalar, e mesmo aí não há com encaminhamento do SNS ou internamento.
Residente ainda à espera do número de utente: o hospital pode cobrar o custo total, mas só se, nos 10 dias seguintes ao pedido de pagamento, não provar que tem o cartão ou que já o pediu. Guarde esse comprovativo.
Visitante da UE com Cartão Europeu de Seguro de Doença: os mesmos direitos de quem está seguro em Portugal.
Visitante do Reino Unido com GHIC (ou EHIC britânico ainda válido): cuidados públicos clinicamente necessários nas mesmas condições de um residente.
Outro visitante sem seguro: não é beneficiário do SNS, por isso o hospital fatura o custo dos cuidados prestados, a preços do SNS.
Os estrangeiros residentes têm acesso ao SNS em igualdade com os outros beneficiários e seguem as mesmas regras sobre taxas moderadoras. Para ter número de utente precisa do documento de residência: como obter o número de utente.
Os cuidados urgentes e vitais são prestados a estrangeiros mesmo sem documentos. Não ter seguro muda quem paga, não muda se é tratado.
E pagar à entrada?
Em setembro de 2026 a inspeção da saúde recomendou que os hospitais avaliassem cobrar aos estrangeiros não residentes à chegada à urgência. Uma unidade local de saúde de Lisboa respondeu que não é tecnicamente possível faturar antes de o episódio estar fechado. Na prática, a conta, se houver, chega depois: a notícia em resumo.
5. Guarde todos os papéis
Se tem seguro de viagem, ou um cartão do seu país que reembolsa cuidados no estrangeiro, o pedido depende dos documentos. Peça e guarde:
- a fatura em nome do doente, com número de passaporte ou NIF;
- a nota de alta ou o relatório clínico, com o diagnóstico;
- todas as receitas e os talões da farmácia;
- o comprovativo de pagamento: talão do cartão ou extrato bancário;
- os recibos de táxi ou transporte, se a apólice os cobrir.
Se a seguradora tem linha de assistência, ligue antes de pagar num hospital privado. Algumas apólices só cobrem o que autorizaram primeiro.
Armadilhas a evitar
- Saltar a chamada. Entrar na urgência sem encaminhamento do SNS pode custar a taxa moderadora que uma chamada para o SNS 24 teria evitado.
- Usar o Cartão Europeu num hospital privado. O cartão não cobre cuidados privados.
- Tratar o Cartão Europeu ou o GHIC como seguro de viagem. Nenhum o substitui, e o Cartão Europeu não paga o regresso a casa depois de doença grave.
- Ignorar uma conta enquanto o número de utente está pendente. Responda em 10 dias com o comprovativo do pedido.
- Esperar demasiado. Se a pessoa piorar, ficar sonolenta ou confusa, ligue 112 em vez de voltar a ligar para o SNS 24.
Como se articulam o sistema público e o privado: saúde em Portugal para estrangeiros. Escolher uma apólice antes da próxima vez: seguros em Portugal.
Orientação, não aconselhamento jurídico ou fiscal — verifique o seu caso em fontes oficiais.